27 de set de 2010

Δs = v.Δt

...na inércia, em movimento retilíneo uniforme até aquela parede ali na frente, cuja porta da lei se recusa abrir. Se não abrir, farei minha urina ali mesmo!
Com prazer!

19 de set de 2010

“Não quero ter razão, eu quero é ser feliz!”


Essa frase foi dita por Ferreira Gullar, em uma das mesas da FLIP 2009. Em ocasião posterior, Gullar disse que se referia ao embate judáico-palestino, e comparou-o com sua relação conjugal:

“Israelenses e palestinos têm que parar de discutir. Passado é passado. Enquanto quiserem ter razão jamais farão as pazes. É que nem com a minha mulher, Cláudia. Brigo com ela, provo que estou com razão, ela sai irritada (eles moram em casas separadas), passa três dias sem me ligar, fico aqui cheio de razão, triste pra caramba. Brigo com a pessoa que amo, que me dá alegria, para ter razão? Eu quero é ser feliz.”

A frase é genial pois, além de opor duas coisas que não são antônimas - o q causa um efeito extraordinário em quem a ouve ou lê -, indubitavelmente, instiga uma discussão sobre essa mesma oposição q a estrutura da frase sugere: a razão é causa da infelicidade.

De fato, muitas vezes, pela mesquinhez de não se “dar o braço a torcer”, alimentamos uma desavença cujo término só chega pela capitulação de uma das partes. No caso dos judeus e palestinos, por envolver não apenas a questão territorial, mas também a fé, essa rendição é mais complicada, por isso o fracasso das diversas negociações de paz por q passaram. No entanto é um exemplo de como a defesa da razão (entenda-se “a razão de cada um”) principia um conflito.

Já em relacionamentos, como explicitou o poeta, a gente briga – com razões (são sempre duas) – fica um de cara feia pro outro - infelizes.

Mas o q acontece boa parte das vezes, e q não está no no pequeno relato do Gullar, é q, depois dos “três dias sem ligar”, um dos dois resolve retomar a discussão – e geralmente é aquele q reconhece ter extrapolado na defesa de sua razão e admite a razão d@ companheir@.

Se é assim, então sugerir ser necessário deixar a razão para se ter felicidade me parece um equívoco.

Pergunto, por exemplo - pra retomar o enunciado do Gullar –: O q geraria aquela infelicidade: a razão de um, ou o não reconhecimento desta pelo outro?

É claro q definir razão não é fácil: é subjetivo e muitos consideram q ela nada mais é q a boa manipulação de palavras e persuasão na linguagem e, fora isso, não existe enquanto tal.

Não vejo assim!

E acho q dizer q a razão 'não existe' é admitir nunca ter precisado pedir desculpas.

O fato é q estamos tão vinculados a um Way of Life em q a individualidade se tornou uma espécie de egoísmo e, com algumas exceções, sequer conseguimos nos por em um lugar q não seja o nosso - e esse é o único lugar cuja passagem de ida o dinheiro não compra.
É um estado de coisas em q o mais importante é o resultado – positivo, claro –, e nesse sentido, não há espaço para a admissão de um erro – pois seria admitir uma 'derrota' (que nem existe). Assim, ficar com sua razão seria mais confortável.

Brigar, a gente também briga (como diz Zé Simão: “Trisca pra ver o q acontece”), pois acho q quem não defende seu ponto de vista expõe certa covardia. Brigo... até certo ponto.
Com a Li também é assim: a gente sai no verbo (em oposição a “sair na mão”) – afinal eu sou o Israel e ela sempre dá um jeito de ser a “Palestina” -, mas no final das contas, tentamos ver o erro de um ou de outro e encerrar nossa pequena intifada, sem, contudo, abrir mão da razão.

Por que a razão existe sim: está no termômetro da ignorância, no paquímetro da raiva, na balança das palavras – e às vezes, no pluviograma das lágrimas.


Está, meus caros, no reconhecimento de sua perda.



 

13 de set de 2010

"Poema"

Apresentei a pistola,

escrevi porque quero tonto

lhe afamar de minhas três teresas.

Por príncipe da condessa,

eu tenho que pegar teu bruto à tua beleza,

Cebolas, alhos e sua beca.

O sorris ao usar dentes.

Por isso quero lhe de zé,

de que a senhora tenha cerveja,

de que lhe quero minto.


(CHAVES, ? - "Carta ao açogueiro", México. 1985. edição SBT revisited: São Paulo. 2010.)

11 de set de 2010

Condicional

Para um homem apenas
não é possível o corte

não é possível a dor
a sorte cor de cobre.

Para um homem apenas
não há doença ou cura.

Inexiste febre
cárie, mercúrio, pluma.

Para um homem apenas
é improvável o verbo,

rosto pareado ao rosto
no espelho em reflexo

Para um homem apenas
a duras penas há um corpo

somente só, intratável
não-oco.

Para um homem apenas
não é.

É preciso um outro - oposto.

Com um par de asas no dorso
e outro de sandálias nos pés.

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9 de set de 2010

Confesso: Já li Paul Rabbit



Nada mais trivial que criticar livros de auto-ajuda e Best-Sellers. Esboçar sua raiva, indignação, na tentativa de mostrar alguma intelectualidade. O problema é q, constantemente essa crítica vem acompanhada por uma certa arrogância: é baseada na opinião do outro (do professor, do escritor de renome ou qualquer outro ícone seu), mas o autor mesmo da crítica sequer leu algum dos livros. Mais de uma vez ouvi dizerem q – para continuar nos clichês – “Paulo Coelho é uma bosta”. Pergunto então qual livro do cara ele leu. Adivinhem: Nenhum. Questiono-me como alguém pode criticar algo sem ter experimentado. Isso me sugere certa infantilidade (quando eu era criança dizia não gostar de berinjela – nunca havia comido – contudo, hoje, mais maduro, não nego um prato desse legume. À parmegiana ou recheada então...beleza!).

E antes q alguém me pergunte se eu gosto de fezes, e quando eu responder não, perguntar se já experimentei, leia esse artigo sobre a relação olfato/paladar, ok.

Bem, nunca comi merda – eu acho – mas já li Paulo Coelho, Agatha Christie, “Violetas na Janela” e coisas assim, lá no início, quando não tinha sequer ideia do q era literatura, valor literário (que aliás, até hoje nenhum teórico conseguiu definir), nem tinha orientação sobre o que ler, i.e, oportunidade de acesso à outros autores q não aqueles ditados pela lista dos 10 mais nos jornais revistas e boca-do-povo. Mas o fato é q eu LIA, ao menos.

Com efeito, penso que a qualidade desses textos seja questionável – para quem leu, sabe oq estou falando -, já q boa parte desses livros não tem preocupação com a elaboração linguística - e não se trata de gramática correta ou não, é q eles pintam e bordam com o lugar-comum, com as mesmas metáforas desgastadas -, apostam nas fórmulas q deram certo lá atrás e q ainda enganam algumas pessoas (Alguém poderia me explicar a diferença entre Robert Langdon e Indiana Jones: acadêmicos atrás de simbologias, cujas vidas são repletas de aventuras?), arriscam conselhos frouxos, iludindo os leitores ávidos a aprender alguma coisa. (Haja vista as estantes das livrarias repletas de títulos do tipo: "Como fazer isto"..."Como ser isso"..."Como lidar com aquilo",etc)


O q eles fazem é trabalhar com a generalização, supondo q todos temos os mesmos sentimentos, as mesmas necessidades e se esquecem da complexidade do ser humano. Não tocam nas particularidades da experiência histórica que é a vida, e tampouco se importam com o momento da história em que estamos.
A triste ironia: é exatamente por isso que esses livros dão certo. E vendem. Afinal, para alguns livros há o bom gosto. Para todos os outros existe Mastercard*

No entanto, conquanto, entretanto, todavia, embora os livros como esses sejam fracos literariamente, há quem os leia. E talvez aí resida a importância da chamada literatura menor: iniciar pessoas no mundo da leitura. São textos fáceis que ajudam as pessoas a criarem o hábito de ler,e isso pra mim e espetacular. Deixe lerem Crepúsculo, Melancia, O Zahir, Norah Roberts, Augusto Cury e outros. Se lerem já estarei satisfeito. Não subestimo a hipótese de q alguns desses leitores possam partir para outros autores mais, digamos, menos generalizadores e triviais.
Quem sabe o carinha q leu Crepúsculo e gostou do clima soturno não parta para um Poe; a menina q leu Melancia  não se enverede por contemporâneos como Clarah Averbuck; ou então aquele q leu o Alquimista e achou ter entrado na alma humana não descubra Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu,Virginia Wolff ?
Deixe-os. talvez com alguma orientação isso venha a acontecer.

E sinceramente, dúvido que alguém aqui q é amante das Belas Letras, da considerada boa literatura, tenha começado lendo...Finnegans Wake.

 Eu não.
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6 de set de 2010

A leitura de Poesia


Não é novidade dizer q o hábito leitura não faz parte da cultura brasileira. Segundo dados do MinC, lemos 1,8 livros por ano – número extremamente baixo, sobretudo se comparado aos de outros países: França (07 livros/ano); EUA (11 livros/ano); a Colômbia (2,4 livros/ano). 

As desculpas são várias. Umas válidas, outras nem tanto. Dentre o motivos, incluem-se a ausência de biblioteca nas cidades; falta de apoio nas escolas, que encaram a leitura como obrigatoriedade; alto índice de analfabetismo; escolaridade baixa; renda insuficiente; e a mais esfarrapada: livros estão caros.
Talvez por isso o brasileiro gaste R$ 30 por ano com livros - o q de fato permite comprar 01 ou 02 livros a cada 365 dias. Será?

Nesse fim de semana, com R$30 comprei 04 livros em sebos – e tive troco – dentre os quais Drummond ($7), Machado ($5), João Antônio ($5) e Haruki Murakami – mais recente – a $10. Duvidam? Entrem no estante virtual. Com os 3 de troco comprei uma Coca-cola (cara pra caramba, quase um livro), me arrependi, devia ter comprado uma água – duas, com 3 pilas - mas é q, com calor infernal que faz em Sampa, a gente não raciocina bem.

Assim sendo, a não ser q se considere o objeto livro mais importante q o texto escrito nele, a ponto de só negar o usado em detrimento de um novo, dizer q não lê porque o livro é caro é equiparável ao “ônibus quebrou” da desculpa ao seu patrão.
Não é mentira q o mercado editorial pega pesado nos preços – o Estado também não colabora: o livro é sobretaxado demais. Mas, é bem estranho ouvir aquela desculpa se, para continuar com índices e pesquisas, no Brasil gasta-se U$$ 42 por mês com celular , o q a meu ver indica q a fator dinheiro não é tão significativo assim.

O fato é q preferimos passar horas em frente à novela da tevê, o filme no cinema (nem sempre de boa qualidade), ou ouvindo música a “perder” horas lendo um Dostoiévski, um Cony, João Ubaldo ou mesmo um Dan Brown e etc. (a discussão sobre best-sellers fica pra outra postagem..).
Se atentarmos para a situação da poesia então...uhmm...é bem difícil. Não bastasse a Literatura como um todo estar for dos costumes tupiniquins, a poesia tem um lugar específico dentro dessa exterioridade.
É um gênero literário que demanda certo conhecimento da tradição poética, dos percursos por ela percorridos, os valores de cada época para então se aprender a ler poesia. Caso contrário, o q se terá será a estranheza a cada poema lido. 

Lembro-me, por exemplo, de q eu não entendia porq q, sendo “tudo poemas”, Camões escrevia tão diferente de Bandeira. Por q que em Olavo Bilac, os sonetos eram fechadinhos e em Drummond sequer havia rima no fim do verso; e por q q Bocage falava tanto em relva, pastores, ventos tenros, mas Camões não, se os dois compunham sonetos. Isso me fez prejulgar os poetas e embutir valores anacrônicos a cada um. Resultado: deixei de ler muita gente boa.

É q, além disso, ler um poema demanda um pouco mais que apenas vontade. Requer disponibilidade e paciência. Não é na primeira leitura q se entende esse texto – e ninguém garante q será na décima, décima-primeira...
O poema desafia: A decifração das imagens, o reconhecimento dos artifícios linguísticos, a associação a nossa própria vida. É um tipo de desafio q espanta aqueles q preferem a facilidade de uma telenovela, por exemplo, q, vá lá, não exige quase nada de seu expectador, além de ter visão e audição. E, no ambiente socioeconômico em q vivemos, no qual toda atitude deve gerar um produto imediato que supere a perda de tempo e, se possível, dê lucros, a leitura q não cumpre esse papel é descartada. Sobretudo se for aquela q é encarada como um “enigma”.

Se eu posso ver o filme Ensaio sobre a Cegueira, em vez de ler o livro, por q não? se eu posso trocar o fácil pelo difícil, pra que optar pela “pulga atrás da orelha?”.

Até porq, como diria Paul Valéry, “nos sentimos mais confortáveis ao negar a dúvida”.
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