12 de mai. de 2011

Poemas não são para serem publicados

Renata Pallottini
Poemas não são para serem publicados
poemas são Drag Queens
rolando piteiras em puteiros
ou somos nós,
poetas velhos de caras borradas
poetas de cinco centavos

Poemas não são para serem publicados

Poemas são para serem escritos
às vezes rasgados
às vezes guardados
Podem ser confessionais,
imorais de vanguarda
Podem ser apenas
a voz humílima do guarda
Podem ser criança

Mas em Geral
são sem esperança
de serem publicados
Poemas custam caro
e não fazem o mesmo efeito de um choque
não fazem o efeito de um baseado
Poemas não servem para trepar
nem nada

Nem sequer tente publicar seus poemas
faça-os voltar calados às gavetas
Com eles ninguém se meta

Dormirão como dormem os drogados:
tristes, gelados, pesados
mas serão sempre únicos
Sempre ineditamente mediúnicos

Sempre salvos das graças das prebendas
Sempre coisas pudendas (ainda que sujos)

Poemas, sempre úmidos
Noviços, fim de feira
maus de venda e de vida.

Não são nem mesmo um incentivo à leitura,
pois quem vai ler linhas quebradas
oriundas de alma idem?

7 de mar. de 2011

Enquanto a escola desfila



São 05h55 da manhã do dia 07 de Março - em pleno carnaval 2011. Estou no trabalho pensando no q fazer depois, já q lá fora a realidade cedeu espaço para as fantasias - micro fantasias, pra melhor dizer. Talvez me tranque, como de costume, no quarto em meio a 500 livros dos quais li menos q a metade, e me transforme em um personagem qualquer da ficção literária, a fim de viver uma vida outra - e de graça!

Já me disseram uma vez q "arte existe porque a realidade não basta."[1] E é por isso q às vezes me enrolo naquele monte de páginas, fibra de celulose e sangue -, procurando saber em qual delas estará meu papel.
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[1]Ferreira Gullar, Folha de SP, 07/03/2010

10 de jan. de 2011

29 de dez. de 2010

Anedota


Um dia, os orgãos do corpo disputavam para ver quem seria o Grande-Chefe do corpo.

O coração falou: eu serei, pois envio sangue para vcs todos e sem mim o corpo não vive. O cérebro retrucou: Eu é q serei, pois se eu parar aí sim é que se considerará morte. Você, coração, ainda pode ser transplantado. O rim também brigou: Eu q quero ser o Grande-Chefe do corpo, pois se eu não eliminar a água do corpo, já viu né, o q acontece!!
Aí o Cu resolveu falar: Ah não, eu q mereço ser. Então todos riram, dizendo: “Ah tá, justo quem faz mais merda quer ser o Grande-Chefe do corpo, hahaha”

O Cu ficou revoltado e resolveu se vingar. Ficou trancado por um mês, as fezes foram se acumulando e o cheiro ficando insuportável, até q os outros cederam: “Tá bom, você será o Grande-Chefe do corpo".

Desde então, todo cusão é chefe!
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12 de dez. de 2010

Finalmente férias!




É agora q teremos tempo para nos mesmos, para cumprir deveres além daqueles da faculdade. Não há peso. Não há crime. Só a sensação de liberdade - provisória, mas existe – das obrigações curriculares.

Estranho falar isso: “obrigações curriculares” - porque, acho eu, não deveria ser. Não deveria haver obrigação quando se faz aquilo q se gosta. Mas há. E se há, há um problema aí.
Ou ali – na faculdade.

Mas deixemos isso pra depois...


Não quero interromper minha água de coco.

2 de dez. de 2010

Longi-tudo



Longi-tudo

Meço à distância

essa saudade desmedida
q o verso curto não alcança
e, ainda assim, arre-
                               messo.
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26 de nov. de 2010

Dois: ah...humm




ela
deli
ciosa

ele
dela
cioso


ela
nua
boa

ele
nu
bem bom


(FALEIROS, Álvaro. in Meio Mundo, São Paulo: Ateliê Eitorial, 2007)
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21 de nov. de 2010

P.A do invisível


Pela rua, passa a roupa.
Passa a moça, passa o ruge.
Passa o terno e a gravata.
Passa gato, passa cão.
Passa puta ignorada.
Passa a mãe, passa o pai. Passa o pão na mão da mãe.
Passa toda a meninada.
O poder passa.
Passa chefe e a patroa
O olho alheio (quando passa).
Passa mesmo. Até o nada.
O gari, coitado, para.

Conta:
(1; 2; 3;...n; n+1;
nenhum)

...[...]...

Um olá não passa.
Um sorriso não passa.
Um bom dia não passa.

O gari passa o dia

varrendo o feno
na cidade fantasma.

(in Colírio)
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13 de nov. de 2010

O canto da ilha reconhecida


Aqui, neste quase,
habitado por um meio/corpo
(enquanto o inteiro é metade)
o pouso, o desembarque
são poucos.

E os que vêm a repouso
nem chegam a ficar.
Ficam à esquerda, com seus tapa-olhos
a piratear um gesto
pra cá e pra              lá.

Afirmam o desequilíbrio
desta ponte entre mim,
sem saber que partem

deste porto

para o mesmo não-lugar

emerso em parte alguma
imerso em uma lacuna

                                               insular.


(Israel, in Colírio - livro inédito)

11 de nov. de 2010

Claudia Roquette-Pinto

Claudia Roquette-Pinto

Sítio

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: - Pai!
acho que um bicho me mordeu! assim
que a bala varou sua cabeça?

ROQUETTE-PINTO, Claudia. Margem de Manobra. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2005.